05 outubro, 2008

"Entendendo a Paixão" Texto de Ana Maria Chagas




Nunca havia visto antes olhar tão triste.Tentou explicar mas não encontrava as palavras certas.Abaixou os olhos, apontou para o próprio peito e disse: “dói bem aqui”.Ela começou a falar devagar depois de vários minutos em silêncio e notei que devia esperar algo muito sério.Marcou um almoço num restaurante mais reservado do que o normal.Imaginei que seria para experimentar alguma novidade gastronômica, mas quando a encontrei, não havia aquele sorriso aconchegante que sempre me fazia sentir em casa em sua presença.

Apenas acenou e convidou a sentar, olhando para o menu fingindo estar concentrada, disfarçando mal a tristeza.Esperamos o garçom anotar os pedidos e respeitei seu silêncio até que ela pudesse encontrar as palavras certas, porque conheço a dificuldade de falar sobre si mesma que as raras pessoas que sabem ouvir têm.Repetiu baixinho: “dói bem aqui”.
E pude compreender tudo. Já a conhecia tão bem. De uma mente extremamente questionadora e curiosa, poderia passar por cética e extremamente racional. Quem a procurasse poderia encontrar uma pessoa sempre pronta a ajudar, porém deveria estar preparado para ouvir frases surpreendentes, como se ela tivesse o dom da telepatia e conseguisse buscar na sua mente justamente aquilo que queria esconder.Mas a grande verdade é que essa moça teve poucas oportunidades de se deixar levar pela emoção e em nenhuma delas o resultado foi feliz.E pessoas assim acabam se tornando muito observadoras – de livros e de gente – buscando sempre aprender com as experiências dos outros. Principalmente, as atitudes que nunca deveria tomar e os sentimentos a evitar como aquele que a surpreendeu distraída: a paixão.Desde que a conheci, sua forma de saudar sempre foi: “comprei um livro novo magnífico” ou “você precisa ver este filme” e dali iniciava os comentários que depois ficariam gravados na minha memória por dias.Com o tempo minha mente já havia se acostumado a dialogar com ela, mesmo que não estivesse próxima de mim.E essa moça que parecia compreender as questões mais complexas do ser humano; a amiga que me aconselhou em tantos momentos; que por várias vezes vi passar a madrugada ouvindo queixas de tantos outros; que sempre tinha uma resposta positiva pra tudo; quis me mostrar que também é humana.Segurei sua mão sem saber o que dizer


Estava acostumado a falar, a me queixar, a esperar dela a palavra de consolo. O que dizer a alguém que parecia sempre entender de tudo e saber todas as respostas?Não tocou na comida. Girava o copo com gelo e perguntou: “Então é assim mesmo a paixão? Onde foi parar minha razão?”Ensaiei frases ridículas. Daquelas padronizadas que guardamos para distribuir nos momentos certos. Como se ela já não conhecesse todas.E sem nem mesmo captá-las integralmente, saíam num fluxo contínuo, mistura de desculpas e constrangimento: “pode ser ilusão...você criou uma imagem... também pensei sentir o mesmo.”Até que ela me olhou diretamente.E em poucos segundos fixei naqueles olhos brilhantes de pranto tudo que nos uniu durante todos esses anos: empatias, reflexos, planos compartilhados, filosofias, visão integrada de um mundo que vivia se desintegrando dentro e fora de nós.



E a infinita insistência de ambos em dar nome de amizade àquele encontro inexplicável de almas idênticas.Acostumados a entender um ao outro sem palavras, apesar de essenciais naquele momento, ainda assim me calei.Tentava coordenar meus pensamentos e mal a ouvi dizer que se sentia ridícula e não podia mais esperar respostas.Levantou-se devagar tentando uma despedida leve.“Para sempre?”, perguntei.E já refeita, ajeitou a bolsa no ombro e disse muito segura: “Tudo acaba quando amor e paixão começam, frase de Bob Dylan em "Não estou lá". Você precisa ver este filme.”







Um comentário:

Eleonora disse...

as vezes querido meu. nao é necessario o entendimento.. é preciso apenas saber...

beijo beijo e mais beijo